Quando eu era criança, achava que todas as pessoas da cor “marrom”, eram índias. Fui uma criança noventista e na época eu desconhecia a palavra indígena. Eu já tinha mais de 30 anos quando li esse termo pela primeira vez. Sou uma pessoa “marrom”. E, por conta desse pensamento, eu sempre me achei indígena. Minha família é mestiça, tendo nela muitas raças humanas. Eu não gostava da palavra raça, até formar a minha consciência racial demorei uns 29 anos para construí-la e até hoje ela está em desenvolvimento.
A mestiçagem em minha família é diversa. Na parte materna tem origem europeia e africana. Tive o prazer de conhecer e conviver com meus bisavós. Os dois eram brancos. Minha avó também é branca. Conheci, mas não convivi com o meu avô materno. Ele era negro retinto1 do cabelo liso, suas verdadeiras origens são desconhecidas. Teve uma época em que minha mãe até quis saber um pouco mais, mas, sem sucesso, não conseguiu muitas informações. Porém especula-se que ele morou na Bahia, na cidade de Caculé, onde a esposa dele também tem parentes que moram lá até hoje. Conversando com minha avó materna, cheguei a algumas conclusões; de que ele foi sim escravizado, saiu da Bahia e foi para o interior de São Paulo, quase divisa com Mato Grosso. Ela já me falou várias vezes das condições nas quais trabalhava em uma fazenda na cidade em que eles moravam. Para eles viverem seu amor, ela teve que fugir, e foi assim que formaram família na cidade de Campinas, onde criaram quatro filhos. As primeiras pessoas que conheci são “marrons” como eu, os parentes. O quintal sempre foi próprio, graças às lutas diárias do meu avô, que trabalhou como pedreiro, levando os três filhos para serem ajudantes, quando eles eram crianças. Enquanto eu escrevia esse parágrafo a música que veio em minha mente foi; “Cuitelinho”, de Pena Branca e Xavantinho.
Toda vez que vou falar da parte paterna, eu confundo com a materna. É que essa parte da minha vida, me foi negada pelo meu próprio pai, e por conta disso não tive muito contato com eles. Essa é a parte brasileira que eu considero mais brasileira da minha história. Conheci meus avós paternos e minha bisavó. Todos eram “marrons”. Desconfio que o meu avô paterno tenha uma origem portuguesa, mas não tenho certeza. Minha bisavó era indigena. Moradora da periferia com sete filhos “marrons” pra cuidar, desconheço a história do meu bisavô. Aos 31 anos comecei a ter mais contato com a minha parte paterna. Faz anos que não falo com o meu pai, por escolha própria. Mas resolvi ir atrás dela mesmo sem ele, precisava descobrir a minha verdadeira origem. E foi aí que se revelou em minhas buscas, que tenho sim sangue indígena e a etnia é Kaingang. Meu pai nasceu no Paraná, perto de Londrina. Eu nunca fui lá, mas morro de vontade de conhecer a cidade de pertinho. Meu pai é indígena e tenho quase certeza que ele não sabe disso e muito menos se sende como tal. Patriarcado é uma palavra que sempre foi desconhecida para mim, pois fui criada no matriarcado por duas mulheres, uma branca e outra parda.
Minha família materna tem alguns problemas psiquiátricos. Mas a paterna tem muito mais desses problemas, mas não é resolvido e nem falado. Minha parte materna tem união e a paterna não. “Prossigo a mística”.2
Segundo o IBGE, eu sou uma pessoa negra, parda. Eu nunca tive afinidade com esse termo, mas confesso gostar do lápis cor da pele, porque na minha cabeça de criança essa cor do lápis me representava e eu tinha certeza que era marrom. Anos depois tive contato com o termo colorismo. “Branca demais pra ser preta e preta demais para ser branca”, acredito que esse seja o conflito interno maioria das pessoas “marrons” como eu.
Comecei a ter mais consciência de que eu de fato sou uma pessoa parda sem ser consagrada por etnia, através das letras cantadas pelo Mano Brown, do grupo de RAP Racionais Mc's; “Mais um filho pardo sem pai”.3 Essa frase representa muito a minha falta de conexão com a minha parte paterna, que me foi roubada pelo meu próprio pai, e por sinal meu filho, que, é “marrom”, sofre da mesma consequência que eu e o Mano Brown sofremos.
A pessoa “marrom”, na minha visão, é mais vista como uma pessoa “branca” do que uma pessoa negra, pois ela é mais “aceita” na sociedade do que uma pessoa retinta. Eu sei que sou uma pessoa negra, nunca tive dúvidas disso e me orgulho muito também. Eu me lembro uma vez, quando eu era criança, que minha mãe ao voltar do presídio, depois de ter feito uma visita ao irmão dela, chegou em casa e disse que no presídio tinha mais pessoas “brancas” do que pessoas negras e que a mídia mente sobre isso. Eu felizmente nunca entrei dentro de um presídio para fazer visita a alguém. Eu devia ter uns 8 anos quando minha mãe fez esse relato. Alí eu já desconfiava que tinha algum tipo de problema na sociedade em que vivemos. Aos 15 anos de idade descobri que as pessoas aprisionadas que minha mãe chamava de brancas eram na verdade pessoas pardas, ou seja, o presídio é sim constuituído infelizmente por pessoas negras até hoje no Brasil, pois sua estrutura está ligada diretamente com a escravidão, mas isso é tema para dissertar em outro texto.