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Aprender a se pentear, aprender a se aceitar: O cabelo crespo na obra Esse cabelo e a impossibilidade de viver a vida na pele de uma outra pessoa

Published onMar 19, 2025
Aprender a se pentear, aprender a se aceitar: O cabelo crespo na obra Esse cabelo e a impossibilidade de viver a vida na pele de uma outra pessoa

A história que será contada aqui se inicia com a leitura de um livro da angolana-portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, Esse cabelo, de 2017. A narrativa nos envolve enquanto apresenta uma mulher negra, filha de uma configuração familiar interracial, sua trajetória entre as famílias (a branca e a Negra) e a busca por conexão com suas origens africanas. Ao refletir sobre suas experiências com o cabelo desde a infância até a vida adulta, a personagem também vai redescobrindo os locais ocupados pela sua subjetividade mestiça naquele espaço-tempo. Apesar de se concentrar nas vivências de Mila, a narrativa serve um enredo que abarca muitas vivências brasileiras quando observada a maneira com que a violência do racismo delimita a experiência com o cabelo, o corpo e as possibilidades para a Mulher Negra que nasce e cresce em contexto diaspórico colonial, adquirindo a compreensão de que algo “veio errado” ao nascer com o cabelo crespo.

Esse cabelo: a tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras apresenta uma pergunta que guia as indagações motoras da obra: qual é a origem do cabelo crespo de Mila? Nascida em Luanda, Angola, Mila era filha de um homem branco e uma mulher negra. Aos três anos se mudou para Lisboa, onde narra suas memórias ao lado dos avós paternos, cercada de pessoas brancas. Diversos trechos detalham sua rotina de neta, acompanhando sua avó em atividades rotineiras, reconhecendo os espaços públicos e estabelecendo vínculos com as pessoas que ali residiam. Foi neste local que o cabelo se tornou um demarcador, a distinção entre ela e as/os outras/os. O corpo era como um lembrete. Corpo que continha muito em comum com seus pares, ao mesmo tempo que servia de lembrete da diferença.

O cabelo, assim como outros traços distintivos de uma pessoa, é capaz de narrar todo o percurso ancestral que um grupo familiar percorreu até chegar no ponto presente. Perceber a relação que Mila, uma jovem Negra de pele clara, ainda pequena é levada a possuir com seu cabelo demonstra quão cruel pode ser para uma criança inserida em contexto interracial se deparar com a conclusão de que não possui a aparência desejável e que precisa fazer algo a respeito disso. A obra demonstra a complexa relação que se desenvolveu entre Mila e sua própria autoimagem, ao trazer as impressões negativas que retomavam seu pensamento vez após vez.

Dizer que acordo de juba por desmazelo é já dizer que acordo todos os dias com um mínimo de vergonha ou um motivo para me rir de mim mesma ao espelho: um motivo vivido com impaciência e às vezes com raiva.1

A vergonha e o riso, seguidos pela impaciência e pela raiva – são esses os sentimentos citados ao tratar da percepção que ela começou a ter de si e dos seus cabelos ao natural no momento mais íntimo, que é o acordar. A construção da vergonha e do riso não ocorre naturalmente aqui, como se florescesse em um solo fértil sem nenhuma ação de mãos humanas. Pelo contrário, no decorrer da história, em diversos momentos pessoas adultas a interrogam, como que desejando respostas sobre seus cuidados com esse cabelo que a pertencia. Apesar do pertencimento, o cabelo crespo jamais é somente da pessoa que o carrega; o coletivo se sente compelido a dar opiniões e sentenças para que este possa ser devidamente domado e para que sejam amansados os seus traços ancestrais.

A pauta do cabelo aparece com frequência similar na vida real para mulheres negras que, assim como a personagem, cresceram em locais dominados pelo pensamento colonial. Deixando de ser um traço para se transformar em uma anomalia, uma deformidade, algo pelo qual se deve sentir culpa ao carregar. Tomando o contexto brasileiro como base, é possível citar como exemplos marcantes dessa simbologia as “brincadeiras” que muitas e muitos são expostas/os já nos primeiros anos de escolaridade (ou mesmo no ambiente familiar), em que seus cabelos são comparados com itens de limpeza como buchas para lavar louças ou vassouras. A ideia da primeira experiência racial que deforma a autoimagem ocorrer em locais que deveriam servir para proteger e formar sujeitas e sujeitos pretas/os, como a escola e a família, serve como confirmação do discurso que circundará esses corpos no decorrer do tempo através dos ideais de beleza e consumo da sociedade em que se inserem.

Eu nascia, com um grau distinto de paranoia, para o meu cabelo e ao mesmo tempo para uma ideia de mulher.2

O que é ser uma mulher Negra em espaços onde sua aparência é comparada ao ridículo, ao animalesco? O cabelo: o traço mais visível de ancestralidade negra e mais propenso ao apagamento. A saída proposta para abandonar o pesadelo que é não ser vista como bela; não ser a mulher ideal; não ser vista; não ser mulher.

Duas imagens se chocam com o transcorrer dos fatos narrados. A primeira delas se trata de Elizabeth Eckford, em uma foto emblemática que representa a rejeição das/os brancas/os estadunidenses à presença de Negras/os em suas escolas. A foto mostra Eckford sendo seguida por pessoas brancas que eram contra o fim da segregação dos espaços, e por isso proferiam ataques contra a estudante. No momento que a imagem surge, a narradora informa para a pessoa que lê que esta seria uma foto sua, tirada bem antes de ter nascido, e uma das poucas imagens em que aparece penteada.

O vínculo que Mila estabelece entre a imagem da jovem e a sua subjetividade não é direto, não se trata de uma foto sua. A personagem reflete sobre os significados daquilo que é possível ler sobre o que ocorria com Eckford no contexto segregacionista e cria relações com sua caminhada enquanto um corpo de África sofrendo intervenções por também possuir pertença lusitana.

Essa análise demonstra como as muitas histórias negras se conectam enquanto coexistem e resistem em torno de significações impostas pela colonização, de tal forma que poderiam ser contadas por diferentes pessoas, ao mesmo tempo que traçam histórias marcadas por experiências iguais.

Image 1

Elizabeth Eckford, Little Rock, Arkansas, EUA, setembro de 1975.

Fonte: Djaimilia Almeida, op. cit., 2017, p. 94.

A experiência do cabelo crespo, assim como ser transpassada/o pela experiência da exclusão, fazem parte de um mesmo conjunto. Apesar da distância de anos entre os períodos narrados pelas imagens evocadas por Mila, pela experiência vivida por Eckford e pelo momento em que eu me encontro aqui escrevendo; e mesmo se tratando de trajetórias geográficas distintas (a portuguesa, a estadunidense e, no caso deste texto, a brasileira), ainda se fala das mesmas dores e dos mesmos impedimentos estabelecidos por uma institucionalidade que projetou como as pessoas Negras poderiam se sentir.

Ao mesmo tempo que “pertence” a esses espaços em que transita enquanto filha, vizinha, neta e estudante, Mila reflete sobre as assimetrias sociais que cercam as condições de vida em solo português enquanto aborda diferenças vivenciadas por sua família negra. A procura por seu cabelo se reflete na procura por si mesma: entre o que se pode lembrar do que foi possível se tornar em um ambiente em que se é lida como diferente.

Sobre a leitura colonial proferida contra as/os que divergem da normatização branca, Grada Kilomba, em Memórias da Plantação (2019), informa que:

Uma pessoa apenas se torna diferente no momento em que dizem para ela que ela difere daquelas/es que têm o poder de se definir como “normal”. (...) Ou seja, não se é diferente, torna-se diferente por meio de um processo de discriminação.3

Processo de discriminação que culminou em pequenos intrometimentos de bem-intencionadas/os a respeito do cabelo da protagonista, que gerou uma visão negativa sobre sua aparência, que a informou do riso direcionado a certos formatos que seu crespo adotara. O mesmíssimo processo que culminou na adoção de métodos arriscados de alisamento pelas/os brasileiras/os, que eram ainda são muito utilizados graças a uma necessidade. Uma emergência foi implantada: atenuar o que a ancestralidade preta está por gritar, aquilo que não se deixa de ser, que a brancura não quer confrontar.

A minha vó branca (de que forma dizê-lo sem soar a novela brasileira?) perguntava-me pelo cabelo: “Então Mila, quando é que tratas esse cabelo?” O cabelo era então distintamente uma personagem, um alter ego presente na sala.4

Demarca a trajetória do livro o retorno a percepção de si enquanto uma mulher que precisa passar por procedimentos estéticos que amenizem os traços que exaltam sua negritude, para que só assim possa ser vista como bela. Essa mecânica imprime as possibilidades de se enxergar daquela que habita o corpo que narra.

Pensar sobre como Mila pode enxergar a si mesma retoma a discussão que emerge da foto de Elizabeth Eckford. O retrato serve de lembrete, um signo comum, aquilo que comporta diversas experiências compartilhadas capazes de atravessar continentes e pessoas, produzindo impactos compatíveis. O que ela pode enxergar de si mesma faz parte do conjunto de significações que compõem o que foi possível acreditar sobre pessoas Negras sob a ótica escravagista. Produtos de uma razão que, segundo Achille Mbembe,5 se propôs a fabricar realidades sobre a/o Negra/o. O autor defende que o signo “negra/o” se manifesta a partir de uma visão quebrada, que enxerga aquela/e que designa como incapaz de evolução, confundida/o com a figura animal distante do mundo social.

O procedimento de construir histórias para designar de forma equivocada e leviana aquela/e que o ocidente desejava saquear, subjugar e desterritorializar produziu a consciência ocidental (razão) da/o negra/o. Um “sistema pretensamente erudito”6 de narrativas, de onde a dominação retira suas frágeis justificações. Traçamos como exemplos que compõem essa consciência ocidental da/o Negra/o todas as vozes, saberes e práticas cujo objeto é categorizar esse corpo-mercadoria-pessoa.

Essas vozes aparecem na história de Mila produzindo uma imagem duplicada, uma caricatura que ela carrega de si mesma forjada em estereótipos negativos. Aqui retomamos a questão entre cabelo e autoimagem, pois ao mesmo tempo que a narradora arrasta um sentimento de repulsa e rejeita a máscara que ela carrega, ela percebe a necessidade de aceitar a si própria mesmo compreendendo que sua visão é fragmentada pela experienciação do racismo. Mila afirma ser impossível escapar totalmente das representações que criaram sobre sua subjetividade, mesmo que isso envolva aceitar memórias distorcidas e incômodas. Esse é um assunto desconfortável para Mila, a este ponto ela já percebe que foi através do olhar de pessoas brancas que ela observou seu reflexo no espelho, construiu sua identidade e a percepção que tem sobre sua aparência. Nesse momento que a segunda imagem emerge para fazer a pessoa leitora refletir sobre o sujeito caricato que o ocidente construiu para Negras e Negros habitarem.

Image 2

Eddie Cantor. Fonte: Almeida, 2017, p. 142

Ao utilizar essa foto, Mila demonstra quão desagradável é habitar o local que ocupa enquanto mulher negra de pele clara em solo português. O blackface: um dos procedimentos mais hediondos adotados pelas/os brancas/os para reduzir subjetividades negras é parte dessa razão conceituada por Achille Mbembe. Essa fabulação da realidade ainda circunda Negras e Negros diaspóricos, mantendo procedimentos de produção de sentido similares àqueles que a colonização portuguesa perpetuou. Procedimentos que construíram uma caricatura para comportar corpos de África.

Diante dessa configuração tão violenta, como encontrar o caminho de volta para si mesma/o? Como fazer as pazes com partes que foram apagadas de sua própria história (e até do próprio corpo)? Mila dá pistas de como procede na sua caminhada.

Sua reflexão parte da memória e demarca uma realidade: não posso jamais deixar aquilo que me fizeram tornar, ao mesmo tempo que devo deixar vir tudo aquilo que ainda posso retomar e assumir para ser.

Fazer as pazes conosco parece-se, penso para comigo, com fazer as pazes com a nossa ascendência, como se estarmos bem na nossa pele adviesse do apaziguamento de termos uma família .

Referências bibliográficas:

ALMEIDA, D. Esse cabelo: a tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

KILOMBA, G. Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. 1. ed. Rio de

Janeiro: Cobogó, 2019.

MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

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