Nascer de um casamento interracial no Brasil dos anos 1990 era, por si só, um ato carregado de significados e tensões que comecei a entender apenas depois de adulto. Meu pai tinha acabado de completar 30 anos e minha mãe completaria 26 naquele ano. Estavam casados há pouco mais de 7 anos, já tinham sua independência, seu primeiro carro, sua casa... Mas, nesse contexto, a ideia de ter um filho — "o que faltava" para completar o sonho burguês — trazia consigo um pano de fundo que, até então, permanecia silencioso: a questão racial.
Sempre ouvi minha mãe falar que sonhava com um filho menino. Como criança muito curiosa que era, eu buscava fundamento em tudo que ouvia. Quando interrogava o porquê daquele desejo, ela dizia que menino é sempre mais fácil. “Veste uma blusa e tá pronto”. Eu até acreditava nessa explicação, mas, olhando para trás, reconheço outra camada. A verdade é que ela não sabia como lidar com cabelos crespos, com a estética negra, com o significado de criar um corpo preto em um mundo branco. Embora cuidasse de mim com amor, percebo uma barreira invisível entre nós: a dificuldade de compreender plenamente a minha identidade negra. Ainda assim, sendo um menino negro — que, nos anos 1990 e 2000, tinha quase que uma obrigação de usar o cabelo bem raspadinho na máquina — não passei ileso por esse dilema com o meu cabelo.
Lembro de alguns episódios que aconteceram quando eu ainda era pequeno, e que hoje leio como as primeiras reações àquele padrão que me foi introjetado dentro de casa. Um dia, brincando de desenhar com canetinha, peguei uma foto minha e fiz nela um cabelo bem liso, de franja e preto, tal qual o da minha mãe. Outra vez, menor ainda, lembro de ter perguntado com certa tristeza à minha mãe o motivo de ela ser branca e eu ser “roxo”. Todos achavam graça dessa indagação, diziam que eu caprichava no chiado, mas, no fundo, penso que não tem nada de muito divertido em uma criança que ainda nem sabe falar direito, mas já consegue constatar que sua cor de pele a torna diferente.
Esses momentos, que podem parecer apenas curiosidades infantis, eram na verdade expressões precoces de um sistema racial que me ensinava a olhar para mim mesmo com estranhamento e a desejar uma aparência mais próxima do padrão que me circundava. A simplicidade com que as diferenças eram tratadas ao meu redor apenas reforçava a ideia de que algo em mim precisava ser ajustado ou até mesmo superado.
Hoje percebo que cresci em ambientes onde a branquitude era o parâmetro ao meu redor, e que minha identidade — enquanto única alteridade visível — foi constituída em relação a ela. Na escola, na família materna, com os amigos dos meus pais e seus filhos, nos lugares de lazer que frequentávamos juntos... A grande maioria era branca! As pessoas negras eram uma exceção silenciosa, uma presença que, embora não fosse negada, também não era discutida, muito menos celebrada.
A ausência dessa discussão sobre a valorização das experiências negras marcou a construção da minha identidade. Cresci sem referências que afirmassem e validassem minha existência racializada, sem modelos que me permitissem enxergar a mim mesmo com orgulho e pertencimento. Em vez disso, fui moldado pela norma branca, o que me impôs o desafio de me reconhecer diferente em um mundo que não me via como parte de sua totalidade.
Talvez você se pergunte pelo meu pai. Ele é um homem negro, bem empregado, muito competente em tudo que faz. Eu jurava que ele era a pessoa mais inteligente que conheceria. Meu pai foi (e até hoje é) um “pai presente”, mas a cor da nossa pele em comum nunca foi um assunto em casa. Pelo menos, não me lembro de nada marcante... Afinal, ele é daquelas pessoas que acredita na meritocracia como resposta universal. Que “cor de pele é apenas cor de pele” e o que importa mesmo é que “você seja bom no que faça!”.
Ao longo do tempo, percebi que ao insistir na ideia de que o talento e o esforço determinam o sucesso, meu pai não reconhecia o fato de que, como negros, já partíamos de uma posição de desigualdade. O sistema não leva em conta os obstáculos estruturais impostos pela raça, e isso gerava em mim um sentimento ambíguo: ao mesmo tempo que me impulsionava a me destacar, também me fazia acreditar que qualquer falha seria exclusivamente minha, como se minha cor não fosse um fator que influenciasse meu lugar no mundo. Na escola, era um ótimo aluno, sempre buscando o primeiro lugar na lista dos mais inteligentes — já que, na lista dos mais bonitos da sala, eu certamente estaria em último.
Junto com essa preocupação com a aparência, cresceu comigo o mito de que se eu estivesse sempre bem vestido, seria “bem tratado” em qualquer lugar e por qualquer pessoa. Mas a prática era bem diferente. A tentativa de manter uma aparência impecável, como se isso fosse suficiente para garantir respeito, acabou se revelando frustrante. A realidade era outra: não importa o quanto eu me esforçasse para parecer aceitável, minha pele negra nunca seria completamente invisível aos outros, e os preconceitos permaneceriam.
A lembrança mais marcante de um episódio de racismo explícito na infância foi numa tarde de verão, quando fui comprar um milkshake. Minha mãe, no carro, me observava enquanto eu fazia o pedido no trailer. Ela sempre incentivou minha autonomia, e realizar pequenas tarefas já era comum naquela época. Todo arrumado, pedi dois milkshakes e esperei. Ao tentar retirar o pedido, descobri que aquele não era o meu. Um senhor explicou gentilmente, e voltei à espera. Na segunda tentativa, ouvi insultos cruéis: moças me chamaram de "ladrãozinho" e disseram ofensas racistas. Na terceira tentativa, finalmente consegui pegar os milkshakes, mas carregava comigo uma tristeza que me marcou profundamente, mas que ainda atravessaria meu caminho tantas outras vezes.
Ao ouvir o que havia acontecido, minha mãe saiu imediatamente do carro para tirar satisfações com as moças e o grupo que as acompanhava. Naquela ocasião, ela apenas devolveu o constrangimento, falou algo sobre como julgar as pessoas pela cor é algo errado e mandou que nunca mais fizessem isso com o filho de ninguém. Apesar disso, a semente da experiência do racismo já estava plantada — e cresceria, exigindo de mim não apenas esforço, mas estratégias de sobrevivência. Foi ali que comecei, mesmo sem perceber, a vestir as máscaras brancas sobre as quais Fanon escreveu.1 O desejo de pertencimento era moldado pela ideia de que o destino do negro é ser branco, ou pelo menos aspirar a sê-lo. Essa aspiração faz parte de um sistema que nunca permitiria alguém como eu alcançar a pretensa igualdade, por mais que se tente. Além do mais, ao contrário do que é representado na pintura A redenção de Cam (1895)2, ser filho de uma mãe branca não anulava minha cor aos olhos do mundo; pelo contrário, tornava a distância entre nós ainda mais evidente quando ela não estava por perto. Penso que essa miscigenação, da qual faço parte, me colocou no meio do caminho: não que eu não soubesse quem era, mas não tinha referências. Ninguém pode ter orgulho de uma identidade que ainda está fragmentada.
Recentemente, ouvi numa rede social3 dois termos que me ajudaram a refletir sobre a identidade do negro miscigenado no Brasil, que pode assumir muitas nuances. O interlocutor dizia haver duas formas principais de ser negro: “fenotipicamente negro” e “politicamente negro”. O primeiro grupo inclui aqueles que não têm estratégias possíveis para esconder suas características raciais em uma sociedade que constantemente estimula o embranquecimento. Já o segundo grupo, com traços suavizados pela miscigenação, foi incentivado a dissimular a sua aparência, porém em algum momento reconheceu que não era branco e passou a exaltar os traços ligados à sua negritude.
Essa dinâmica reflete o passado colonial e escravista, em que a sobrevivência implicava a aspiração à branquitude. Não à toa, escravizados chamados mulatos acreditavam na possibilidade de ascender socialmente e integrar-se ao “mundo branco” assumindo funções distintas. Essas posições não revelavam apenas certa superioridade sobre outros negros, mas também alimentavam a ilusão de aceitação no sistema. Nesse contexto, a miscigenação, que à primeira vista parece uma solução para burlar o racismo, na verdade tem suas raízes nesse desejo de emular a branquitude.
Foi o libertador o dia que tornei-me negro.4 Não precisei mais emular nada; reconhecer minha identidade como algo positivo foi o primeiro passo. Antes, carregava o peso de querer ser invisível, ser mais um cidadão, enquanto ignorava que essa invisibilidade era justamente o que me mantinha distante de quem eu sou. Afinal, crescer no Brasil, onde a branquitude aponta tacitamente apenas um modo de ser, significa que muitos de nós ainda não se reconhecem como são.
De todo modo, já não era o "desejo de ser branco" que me guiava, mas a consciência de que minha identidade era inteira. O que antes parecia fragmentado se completava pouco a pouco num processo de amadurecimento, de mergulho interno. Abraçar minha identidade é aderir à resistência de inúmeros homens e mulheres que não sucumbiram a sucessivas tentativas de apagamento institucionalizado que até hoje se mantém.
Essa jornada de autoaceitação, autonomia e resgate identitário não é apenas uma luta social — o que já seria muito por si só —, mas também uma batalha íntima. É um processo de reconciliação com aquilo que foi perdido e com o que, finalmente, pode ser reivindicado: o direito de sermos, de nos olharmos e nos entendermos não como reflexos de um sistema que nos marginaliza, mas como sujeitos de nossa história, cheios da nossa potência. Pai preto, mãe branca. E eu sou um corpo preto miscigenado em um país que conjuga diversidade com silenciamento, mas em que escolhemos continuar contando e escrevendo a nossa história!