A expressão “mulata da cor do pecado” destaca a figura da mulher mestiça como um ser hipersexualizado e objetificado. Tal expressão evidencia o racismo, machismo, misoginia e sexismo que tiveram origem no período colonial.
A hipersexualização do corpo da mulher negra no Brasil é um fenômeno social. A raiz desse fenômeno se encontra na trajetória histórica das populações originárias e dos povos africanos na sociedade brasileira durante o período de colonização. Trajetória essa atravessada por lutas e resistências diante de toda a diversidade de perversidades cometidas pelos invasores e sequestradores europeus.
A figura da “mulata” surge a partir do processo de embranquecimento da sociedade brasileira. Esse processo foi baseado no conceito eugenista,1 que defendia a ideia de que os genes biológicos e as características inatas dos seres eram elementos determinantes da conduta das pessoas. Esse conceito legitimava a separação da humanidade em grupos de povos “bons”, com habilidades para o sucesso, e outros povos “ruins”, predestinados ao fracasso. Obviamente, o conceito eugenista não possui nenhuma verdade biológica, e hoje em dia é rejeitado pela comunidade científica. Porém, ao longo da história da humanidade foi utilizado como argumento para validar genocídios e crueldades contra vários povos.
O embranquecimento da população brasileira foi idealizado devido à preocupação da classe dominante. Com base no pensamento colonizador e eugenista, acreditava que a nação brasileira poderia se tornar degenerada diante da quantidade de pessoas negras e indígenas.
No livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (1999), o professor e antropólogo Kabengele Munanga afirma que “a pluralidade racial nascida do processo colonial representava, na cabeça dessa elite, uma ameaça e um grande obstáculo no caminho da construção de uma nação que se pensava branca […]”.2
Assim como todo o caminho percorrido desde a invasão europeia, o embranquecimento da população foi executado, essencialmente, por meio da violência sexual cometida contra mulheres negras e indígenas. A hipersexualização, desumanização e objetificação validava a violência e exploração do corpo da mulher africana no período colonial. A filósofa e escritora Sueli Carneiro, no artigo “Enegrecer o Feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero” cita que
Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional”, através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance.3
Os corpos das mulheres indígenas e africanas eram lacerados por violações cometidas pelos colonizadores. O termo “lacerados” é mencionado aqui considerando a violência sexual que transpassou a sobrevivência das ancestrais africanas e indígenas. Esse é um dos fardos mais repugnantes que assombram a sociedade brasileira até os dias atuais.
A “mulata” representava uma pessoa que não tinha o tom da pele retinto, em quem os traços dos povos africanos eram menos marcados, apresentando uma mistura entre as populações europeias e africanas, e era vista por alguns da classe dominante da época como um estágio significativo do embranquecimento da população brasileira. Apesar disso…não havia dúvidas de que ainda não representava a “pureza” e a “civilidade” consideradas como qualidades europeias.
A palavra “mulata” é considerada pejorativa e desumanizadora, devido a sua associação com a palavra mula. A mula é um animal estéril que nasce do cruzamento entre um cavalo e uma jumenta, ou de uma égua e um jumento. Vale citar que neste texto o termo “mulata” é abordado com o intuito de causar um incômodo que conduza à reflexão sobre a significação silenciosa deste termo e a estrutura que o mantém.
O processo de mestiçagem no Brasil aperfeiçoou a objetificação da mulher negra. A figura da “mulata” compunha a construção de uma pessoa objetificada que provocava a atração dos homens, que eram ludibriados diante de tamanha beleza e sedução. E em contrapartida, a “mulata” era a promíscua e a culpada. Culpada por ter nascido com os traços hipersexualizados pelo outro, que a desumanizava e a expunha às consequências irreparáveis desse histórico violento.
O estigma social disseminado se desenvolveu de maneira perversa e silenciosa, vulnerabilizando e expondo a riscos corpos de mulheres negras (retintas ou de pele clara) até mesmo na infância. São pessoas que convivem com o desrespeito de olhares e condutas que as subjugam e sexualizam o seu corpo e o seu ser.Intelectuais como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro nos direcionam a observar a interseccionalidade dos atravessamentos de raça, gênero e classe na vida das mulheres negras brasileiras. Esses fatores afetam a posição social e a exposição a riscos e vulnerabilidades.
No livro O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado (1978) o inteletectual, artista e ativista do movimento negro Abdias Nascimento menciona que
O Brasil herdou de Portugal a estrutura patriarcal de família e o preço dessa herança foi pago pela mulher negra, não só durante a escravidão. Ainda nos dias de hoje, a mulher negra, por causa da sua condição de pobreza, ausência de status social, e total desamparo, continua a vítima fácil, vulnerável a qualquer agressão sexual do branco.4
A exaltação do corpo da “mulata da cor do pecado”, além de agir como estratégia para o mito da democracia racial,5 colabora com a ideia da vulgaridade e da promiscuidade como características biológicas da mulher negra. Atua de maneira a induzir um suposto mérito na posição estética e social em que a “mulata” é colocada.
Não há mérito algum. E o título contribui com a manutenção de violações diversas, como agressões, feminicídios, doenças, transtornos, condições de vida insalubres, invalidação da sua intelectualidade, negação da sua identidade e negritude, repressão da sexualidade e outras sequelas que atravessam a vivência de mulheres negras brasileiras.
Esta escrita não possui o intuito de trazer conclusões, mas sim, como já mencionado anteriormente, provocar reflexões sobre a estrutura do racismo. Para que, enquanto pessoas que convivem na sociedade brasileira, seja possível a movimentação social em direção a uma sociedade em que a estrutura do racismo seja moída. Onde mulheres negras de todas as classes sociais possam crescer, sonhar e se desenvolver da maneira que desejarem.
Em honra aos sonhos de nossas ancestrais.
Referências bibliográficas
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Editora, v. 49, p. 49-58, 2003.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1978.
GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro. Rio de Janeiro: Marco Zero. 1982.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Editora Zahar. 2000.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional
versus identidade negra. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1999.
NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.