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"Desidealizando" o branco brasileiro: a produção da branquitude nacional dentro do processo de mestiçagem

Published onMar 19, 2025
"Desidealizando" o branco brasileiro: a produção da branquitude nacional dentro do processo de mestiçagem

Pensar o antirracismo no Brasil torna-se um desafio diante daquilo que chamo de "senso comum racial", ou seja, ideias sobre raça amplamente difundidas que dão conta de uma suposta harmonia entre os grupos raciais socialmente construídos. Talvez a crença mais difundida pelo senso comum racial seja a de que, diferente dos Estados Unidos, existe uma mistura racial no Brasil que nos livrou de um racismo violento e institucional. A crença no "país mestiço", faz surgir outra: a falta de brancos legítimos. Segundo esta tese, a mestiçagem brasileira fez emergir uma população "racialmente impura", impossibilitando o estabelecimento de uma supremacia branca. Assim, branco seria aquele que, na sua linhagem, não possui nenhum cruzamento com os grupos tidos como "racialmente inferiores".

A maioria das produções acadêmicas sobre a mestiçagem enfocam em seus efeitos sobre a população negra, e pouco se fala sobre os seus efeitos sobre os brancos. No mesmo caminho seguem as análises sobre a política de branqueamento. Ao silenciar sobre o branco no processo de miscigenação, as produções sobre relações raciais perdem de vista a produção de brancos pela mestiçagem. Lourenço Cardoso,1 em sua dissertação de mestrado, aponta que havia certo pessimismo entre os pensadores eugenistas sobre a miscigenação. Para eugenistas como o Conde de Gobineau, ela representava o declínio da humanidade. Na concepção deste eugenista, a Europa representaria o berço da civilização, o branco ideal seria o germânico, e os nórdicos seriam descendentes da raça dos deuses e, por consequência, os seres humanos ideais.

Cardoso pontua que, dentro desta lógica de supremacia branca, os portugueses eram vistos como brancos menos brancos, "um branco não tão superior assim". Essa concepção sobre os portugueses estaria fundamentada na sua relação histórica com as populações africanas e indígenas. Diante disso, restou aos eugenistas brasileiros criarem sua própria concepção de brancura. Edward Telles2 argumenta que, diferente dos eugenistas norte-americanos, os brasileiros optaram por uma eugenia corretiva, aquela que seria capaz de corrigir os "genes defeituosos". Logo, apostar em uma política de imigração europeia para fazer desaparecer a "africanização"3 por meio de um processo de branqueamento pareceu mais razoável e palpável para a realidade nacional. Firmou-se assim uma estratégia que no prazo de cem anos deveria eliminar toda a herança cultural e biológica africana originada da escravidão negra.

Embora a política de branqueamento tenha se firmado como o método de modernização racial da Nova República, Kabengele Munanga4 pontua que tal proposta não era unânime entre os eugenistas brasileiros. Nina Rodrigues, por exemplo, acreditava que o branqueamento só atrasaria um outro processo que já estava em curso no Brasil: o escurecimento. Monteiro Lobato seguia na mesma linha ao admirar a segregação racial nos EUA e desejar que o mesmo método fosse implantado no Brasil. Embora houvessem alguns dissidentes, o branqueamento seguiu como forma de salvação e introdução do novo estado brasileiro à modernidade. Oliveira Viana talvez tenha sido o eugenista a trazer uma visão mais adequada à realidade brasileira do que seria o "branco". Segundo Munanga, Viana acreditava na existência do "mulato superior" e do "mulato inferior". Para ele, o "mulato inferior" seria aquele proveniente do cruzamento do preto com branco incapaz de ascender socialmente e degradado nas camadas mais pobres. O segundo tipo, o "mulato superior", seria aquele que, nas palavras de Viana, era dotado de superioridade moral e intelectual, por ser mais próximo dos brancos, e suscetível à "arianização". Estes poderiam se "arianizar" através de casamentos com brancos e da posse de terras. Viana termina dizendo que o "brasileiro do futuro" não deixaria de ser um homem moreno devido à presença do africano no processo de miscigenação, do migrante não germânico, e do clima tropical.

Gilberto Freyre também procurou construir a ideia de uma branquitude nacional. Segundo Freyre,5 a diferença dos colonizadores portugueses para os colonizadores ingleses e franceses é que o português era dotado da capacidade de se misturar racialmente, atributo que conservava desde sua interação com os mouros. Nas palavras do sociólogo, a capacidade de miscibilidade dos lusitanos teria sido a chave para uma colonização bem sucedida nos trópicos. Freyre defendeu que, diferente de colonizadores europeus mais frios e eurocentrados, os portugueses sempre preferiram manter relações sexuais com mulheres não brancas. Isso, na concepção do sociólogo pernambucano, teria proporcionado a produção de uma prole mestiça e vigorosa. Assim, Freyre busca construir uma ideia de branquitude menos antropofágica e mais flexível no convívio com o diferente. Se, por um lado, os eugenistas, na figura de Oliveira Viana, admitiam a formação de uma branquitude nacional fora dos moldes raciais europeus ao afirmar que o "brasileiro do futuro" seria "moreno", por outro, Gilberto Freyre celebrava o Brasil como uma mistura racial e cultural cujo resultado foi criação de um país mestiço.

O branco ante a morenidade brasileira

A partir das formulações teóricas sobre as origens do povo brasileiro podemos dizer que há uma troca do termo "branco" pelo termo "moreno". O termo "moreno" quase sempre é visto como um efeito da política de branqueamento sobre o negro. Logo, os negros rejeitariam se classificar como "negro/preto", adotando termos como "moreno", "pardo", "moreno escuro". Estas categorias fazem referência a um clareamento, configurando-se como formas de escapar dos estereótipos negativos dirigidos às categorias da negritude. Mas, com a evolução dos debates críticos sobre a "morenidade" nas redes sociais, entende-se que moreno também é um termo muito usado para caracterizar pessoas brancas que possuem cabelos pretos. Em 1995, a Folha de São Paulo publicou uma pesquisa que dizia que o Brasil queria ser chamado de "moreno", e apenas 39% das pessoas se autoidentificavam como brancas. Segundo a matéria, a PNAD de 1976 mostrou que as pessoas que se diziam "morenos claros" optaram pela categoria "branco", enquanto aqueles que se diziam "moreno escuro" escolheram a categoria "preto". A publicação ainda traz uma fala de Ezio San, então vocalista do grupo Os Morenos, que afirmando que "moreno é a cor do Brasil" e enfatizando que ninguém gosta de ser chamado de "branquinho" ou de "neguinho".

O uso do termo "moreno" para classificar pessoas lidas socialmente como brancas pode ser verificado na cultura pop. Nos anos 1990, o grupo de pagode baiano É o Tchan contava com duas dançarinas, apelidadas de a "loira e a morena do Tchan". Inicialmente, a "morena do Tchan" era Débora Brasil, uma mulher negra. Com a saída desta, o grupo baiano anuncia um concurso para escolher a "nova morena do Tchan". A vencedora do concurso, Sheila Carvalho, é uma mulher lida socialmente como branca, diferenciando-se da loira, Carla Perez, pelo tom de pele bronzeado e os cabelos pretos. Nota-se que, no Brasil, a ideia de branco segue idealizada no fenótipo de pessoas chamadas de "loiras". A "famosa loira dos olhos azuis/verdes" é o estereótipo de "mulher perfeita", aplicado para os homens também. Não à toa figuras como Xuxa, Ana Hickmann e Adriane Galisteu figuraram e figuram como padrões ideais de beleza. A aparência destas mulheres se liga à ideia de pureza racial dos nórdicos e alemães, os "verdadeiramente branco

Do "branco moreno" desracializado ao "pardo socialmente branco" racializado

A partir da implementação das ações afirmativas, através da lei de cotas, e de seus mecanismos de verificação antifraude, acontece também um conflito entre o "moreno" e o "branco idealizado", que se reflete na disputa do "branco" × "pardo". Dado a informalidade da categoria "moreno", que não figura no Censo de cor ou raça do IBGE, é possível especular que muitas pessoas que não se veem como brancas, por estarem longe de um padrão estético europeu, classifiquem-se como "pardas" dentro da noção de "morenidade". A política prevê reserva de vagas para autodeclarados "pretos" e "pardos", considerados "negros" pelo estatuto da igualdade racial. No entanto, durante todo período de vigência da política, observou-se um grande número de denúncias sobre pessoas lidas socialmente como brancas se valendo de uma autodeclaração de "pessoa parda". Rodrigo Ednilson de Jesus,6 ao contar a história da implementação das comissões de heteroidentificação na UFMG, lembra da sindicância aberta para apurar denúncias de fraudes no sistema de cotas. Segundo o autor, muitos dos denunciados se defenderam alegando a mistura racial na família, através da cor contrastante dos pais, e por não terem um fenótipo entendido como o de uma pessoa "branca idealizada". Talvez esta seja mais um efeito da política de embranquecimento sobre os brancos: (des)racializarem-se através da autodeclaração como pessoa "parda". Isso se torna, particularmente, um problema na discussão sobre branquitude no Brasil, uma vez que categorias como "moreno" e "pardo" podem camuflar a identidade racial de muitas pessoas socialmente brancas. Analisar o branquitude brasileira é entender que a miscigenação também produziu brancos, e assim como o negro, a produção do branco também deve ser analisada dentro do nosso contexto histórico.

Discutir branquitude no Brasil é retomar uma construção histórica de subjugação de grupos raciais marginalizados. Tal hierarquia racial não desapareceu com a miscigenação e permanece ainda nos dias de hoje. Por isso, faz-se necessário o entendimento dos efeitos da miscigenação na vida dos brancos, pois miscigenação e branquitude, no Brasil, não são fenômenos excludentes.

Referências bibliográficas

CARDOSO, Lourenço. O branco "invisível": um estudo sobre a emergência da branquitude nas pesquisas sobre relações raciais no Brasil. Dissertação de mestrado em sociologia, por Faculdade de Economia de Coimbra, 2008.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 2003.

Folha de São Paulo. Brasil quer ser chamado de moreno e só 39% se identificam como brancos, 25.6.1995.

JESUS, Rodrigo Ednilson de. Quem quer (pode) ser negro no Brasil? Belo Horizonte: Autentica, 2021.

NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Editora da universidade e Brasília, 2003.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

TELLES, Edward. Racismo à Brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Dumará, 2003.

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